Minha paquera escapava nos intervalos dos quais o diretor espanava as idéias. “Normalmente” ouvia-se os escândalos repercutirem na bilheteria: explodiam num tom grosso rasgado que na falta do ar afinavam como quem respira gás Helio, praticamente hilário.
Em tais horas ela trombava na porta do saguão enroscando-se nas cortinas de veludo vermelho sangue. Com um celular em punho, desatinada gaguejava: ch ch chamem a a aa ambulância!!! Ele v-v-va vai ter um de-derrame!!!
Hesitante com o impacto eu corria a rampa da arena para apaziguar ou averiguar o surtado cambaleando nas tamancas. Num ensaio berrou: - Mata ela! Mata ela, Tatiana!! Prefiro ser um frango, uma galinha choca do que dirigir uma incompetência dessa. Vocês são medíocres! Medíocres!!
Acusada de morte, reduzida em migalhas, a atriz engolia o choro em soluços enquanto os outros focavam-se nos holofotes de gelatina azul. Giovane ao tagarelar, esmurrou a testa com frenesi no encosto estofado duma das poltronas da platéia. Eu juro que quis aplaudir com entusiasmo e gracejos como: Bravo!! Bravo!! Segurei-me, afinal; onde mais poderia ler Freak Brothers durante o expediente?
Voltando no assunto, nas piscadelas de folga, contudo, a léguas da paz e quilômetros do ócio, na soleira do botequim que ali de canto se encosta, eu e ela ríamos dum flagrante em que fantasiado virou fato histórico. Alegria cerzida de ironia refletida nos dentes envernizados de nicotina. Esse é o retrato falado dos artistas de São Paulo. Pinga, daquela sobrou. Cigarros comunitários, copos de plástico. O fim duma brasa acende a vida de outra. Esfumaça a noite da boca.
Ela disse:
- Sabe... Tenho notado que todos homens estão virando viados. Por que?
- Acho que sei... é porque as mulheres estão muito “Macho”.
- Será?
- Gostaria de me ver de calcinha e tamanco?
- Ah ah ah ah ...
O fim duma brasa acende a vida de outra. Esfumaça a noite da boca.
FIM
Escrito por R.J. às 16h45
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
Conheci Valéria no teatro, ou melhor, trabalhando numa peça; assistente de direção, “ A Lição” – Ionesco -. Durante a temporada, cuidei dos ingressos no Sérgio Cardoso. O projeto ficou pouco mais de um mês em cartaz. Horário alternativo, seis e vinte da tarde, um fracasso. Com a inexpressível divulgação então...
Saio na Ilustrada na estréia, no guia cultural na ultima semana. A foto pífia orçada pela produção foi vetada. A coloração dos dois únicos cartazes foi alterada na gráfica. Não souberam explicar a falha, culparam o novo estoque de tintas: “ uma odiosa e safada marca chinesa trinta por cento mais em conta”.
Atores e equipe, vagabundos derrotados de profissão, exprimindo mascaras de pulcinella da alma, lamuriaram qualquer esforço físico. Voluntários lesados moralmente, convidaram seus parentes burgueses. Os tais, motivados a olhar nu artístico ou breves comédias, desprezaram a tragédia da oferta.
O pai do operador de som confirmou sua presença, entusiasmado como quem foi fisgado pelas testemunhas de Jeová num sábado matutino. Orlando, responsável pela luz, lastima-se com a desgraçada avó de perna amputada. Diz que há anos seu avô dormiu no volante e enfiou o Fusca no poste da Eletropaulo. Desde então, sua mulher toma Sol no oprimido quintal sentada numa cadeira de rodas, ou seja, fadada ao infortúnio da dependência. Empregou uma jovem do norte como doméstica. Essa aproveitou da velha engessada para rapinar panos de prato. Com tal fato, ele, o neto, tenta induzir a tesoureira a dar-lhe uma porcentagem quase digna da bilheteria. Os outros passearam pelas portas das escolas e faculdades. Distribuíram panfletos xerocados em péssima qualidade.
Acompanhei por um tempo a companhia. Estressados, sobretudo com o diretor. Exaustos de ensaios alternativos. Um dia um saiu do camarim bufando em cólera, convidei-o a um café, ele desabafou:
- O Giovane tá nessa punheta há seis meses e meio! Fala que estamos muito aquém do absurdo, que o autor está se remoendo na cova!
Continua...
Escrito por R.J. às 18h31
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
Viro-me, miro meus pés, procuro os sapatos. Paredes escuras, sala diminuta, semelhante a um brechó. Cinzeiro antigo: tartaruga de bronze; tanto o casco quanto o tronco do anfíbio acolhem brasas, guimbas e cinzas.
Curiosidade alastra pelas entranhas, tenho medo. Medusa, Deus me acuda... Tudo Bem, ela repousa, mas nutro a repulsa. Ao girar-me posso petrificar minha vaidade, meus trinta anos. De qualquer forma, é uma vergonha.
A luz da aurora atravessa a textura da cortina, feixes de saída. Felizmente ilustram o trinco. Calco as digitais, torço com cuidado. Sou uma alma penada, calcanhares suspensos. Ah... Elevador, respiro, rompo o gelo com um peido, espirro sorrindo, risos num solitário cubículo rumo ao térreo. Quem é mais fétido, eu ou o fedor compacto? Cumprimento o porteiro: até logo... ( até parece...).
Rua. Aroma de pingado e pão na chapa. Esqueci algo? Carteira, chaves...
Maldito flashback!!! Dois meses se foram. Aparentemente tudo igual: primeira, segunda, primeira, ponto morto, carinho no câmbio. Sinal verde, vermelho, pedestres, pedintes, balas de anis ou flanelas pendendo no retrovisor. Marginal Pinheiros, Bandeirantes, Brooklin, Fran’s Café. Balcão de mármore, padaria de cada dia. Chapeiro caolho, muito simpático, chama-me de patrão. Mineiro quente acompanha o de sempre. Aqueço os dedos na xícara, inalo o vapor da bebida, distraído nas espumas do leite. Maldito flashback!!! Lembrei de tudo.
Continua.
Escrito por R.J. às 07h57
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
Espera aí! Esse rock inglês desconheço. Sim, algo Kink’s, underground. Diríamos, secundário. Motel está fora do baralho. No máximo, os rádios embutidos nas cabeceiras estofadas daquelas camas; as tais nos quartos com teto solar ou espelhos no forro emoldurados de neon; sintonizam a KISS FM. Quando seleciono a trilha sonora das minhas orgias, Rod Stewart goza Faces. Rock’ n’ roll ouve-se alto.
Pode ser a casa dela. E... É provável. Por que raios você não clareia na minha mente? É um erro. Alguém que desconsidero, ou melhor, finjo indiferença. Tenho terror de abrir as pálpebras. O horror tem um rosto que me flerta, conhece minha consciência. O horror... o horror...
Broxei. Ela não. OK! OK!! Já entendi. (A tortura nunca acaba). Oralmente vibrarás com minha lábia. Está mais calma, julgo que espera o expresso para o Nirvana. “ Que transa... Que homem... Meu menino... Ai meu Deus...” Elas acabam mentindo. Mulher mente sorrindo, atuam como puta sussurrante no pé do ouvido: esquece, dance comigo. Pague-me um vinho?
Sete minutos e nada. Velha encalhada. Como?! Ronco!? ... Adormeceu. Eu não disse que era o demônio pedindo carinho?! ...
Cautela, deixe-a sonhar. Suma deste antro como calafrio. Dormir no sofá, nem pensar. Amanhecer nestes braços, eu, cúmplice da ressaca alheia? Vou escorregar feito areia de ampulheta, num minuto faço-me dissolver. Não quero enxergar seus traços; se falha na memória, boa coisa não é. Vou-me embora.
Continua...
Escrito por R.J. às 18h47
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
Esse lugar cheira mofo. O piso é de taco. Rua Apeninos; é uma possibilidade. Apartamento 111.
O porteiro é meu camarada; meio tapado, coitado. Não entende uma palavra, e ao falar, faz-me pensar. Dei-lhe uma rechonchuda almofada, desde então, nas longas madrugadas, ele ronca feito porco.
Meu tio vai casar. Esta mobiliando os cômodos. O sofá vermelho é uma maravilha… Impossível… As paredes expeliriam odor de tinta e as portas, verniz. Minha casa está fora de cogitação, jamais faria tamanha insensatez. Mulher deixa rastros. São bacilos da ruína, começam a surgir no estofado do carro: fios de cabelo, grampos, lápis preto.
Hum… delícia. Finco com afinco meus caninos nas arterias dessa cabrocha. Essa jugular mestiça faz-me vizinho da liberdade. – São Paulo pulsa com sangue vira-lata graças ao porto de Santos. Tornei-me sommelier sanguineo. É um trabalho arduo -.
Até então, aqui, vagando imerso na neblina da minha cegueira, as sombras tomam cor, plasmam em arroubos de amor. Tons de batom, rímel em olhos de gueixa, mar de sardas por onde navego em costas sinuosas. Afago a realidade desta carne duvidosa, dessa companhia que virou fumaça nos meus delírios. Entanto, desfruto da real paixão de todos os olhos que vi e vivi. Estou num harem Fellinesco meio assim: “Oito e meio”. Minhas damas me querem ao mesmo tempo.
Escrito por R.J. às 19h20
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
Vamos por partes. Hoje é sexta ou sábado? Tudo bem, não importa. Eu estava ouvindo "Kind of Blue" no carro... Então saí desacompanhado. Sim, minha baset hound uivou de carência ao pressentir minha ausência quando calcei os sapatos. Copos... De vidro, baixos, com gelo e lascas de limão. Ah. Perdi meu amigo. Estávamos na Augusta, terceira dose de vodca. No fundo do copo havia três lascas de limão; é assim que calculamos nossas despesas diárias. Putz! Bêbado é uma desgraça. Eufórico, paguei todas as rodadas. Mas e agora, quem é essa? Por favor, não caia em tentação; não abra os olhos.
Ela beija mal, muita sede ao pote. Suas mãos crispadas violentam minha languidez."Assim não! ...Que susto. Ficarei aleijado. Se me der um chupão, arranco seu nariz! Vou mutilar sua língua, encalhada duma figa."
Boca pequena, lábios finos, cabelos lisos. Continuo incógnito.
Emudeceu, esta discreta, gélida. Respira pela boca, aspira rarefeita com grunhidos e chiados asmáticos. O forro desse sofá rasgou, estou enterrando esta mulher. Provavelmente uma mulher. Pele não tenra, meu tato decifra seus pés de galinha, cicatrizes ancoradas nesse corpo suado, morno, morto, passivo. Meu Deus!! Estaria eu induzindo essa penitente a padecer, a seu último suspiro? Estaria eu injetando sêmen em cadáver? Saciando minha urgência numa recém falecida? ... Graças ao senhor todo poderoso... Deu cãibra na perna dela.
Continua...
Escrito por R.J. às 23h02
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
Conto N° 3
Acho que sei. Será? Minhas pálpebras cerradas sempre facilitaram as lúgubres ou lúdicas miragens provindas da minha escuridão. Intuição, vozes, visões e imagens que só eu crio ou recebo, só eu tiro proveito ou temo. " Um, nenhum e cem mil". Nada mais solitário do que abrir os olhos e duvidar do espelho. Geralmente pergunto: Esse espelho engorda, não?
Estou ao lado de lábios colados com uma personagem mulher, num sofá de textura rota. Faz calor, exalamos amor, mas, esqueci quem é.
Há tempos, no cruzamento da rua Brigadeiro Jordão com a Costa Aguiar, Ipiranga, eu brincava de cabra-cega com um par de amigos gêmeos. Vestiam-se literalmente idênticos. O mesmo corte de cabelo, patinete, a mesma tatuagem de chiclete. Um, pouco mais gordo, e a voz do outro, sutilmente mais grave. Ambos de nomes compostos, chamavam-se de " meu", ou melhor: "Oh meu!"
Volta e meia vendavam meus olhos, giravam meu corpo até dar vertigem; davam pontapés, tapas na nuca e gritavam:
- O leitão é mulher do padre... O leitão é mulher do padre...
Assoviavam em torno como pernilongos nas madrugadas de sono. Angustiado e irado, eu socava o ar. Receoso, travado, duvidava dos quatro sentidos. Desesperado, explodiam gritos exasperados suplicando o cessar do jogo. Em troca, ouvia em crescente intensidade meu lamento misturado às gargalhadas e o coro do inferno. A rua caçoava de mim, cantarolavam:
- "Chora chora chora, pára de chorar. Põe a mão na cabeça, Põe a mão na cintura... MULHERZINHA! MULHERZINHA!! MULHERZINHA!!!"
Uma vez desabei no chão, encolhi, virei feto sem afeto. Não me rendi, fiquei no escuro com orgulho e teimosia. Minha agonia doída dissipou as vozes. Fez frio e veio pavor de solidão. Mergulhado feito tartaruga escondida no casco, o buraco era tão fundo que não dava pé. Aveludado, cercado, ninguém... Ninguém vasculhou aquelas vísceras negras onde cai.
Naquele instante brotaram imagens. Vinham em terceira dimensão, gráficos de Atari. Formas de insetos, aracnídeos, peixes. Jorraram sem censura em espirais sobrepostas brilhando como vaga-lumes. Convenção de olhos de gatos; aqueles nos pedais de bicicleta.
" ... Seus cat eyes me livram de abismos na escuridão." ( El Muerto).
Continua...
Escrito por R.J. às 19h16
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
Semanas correm velozes, ligeiras, porém em paradóxo, cada dia empaca como uma difícil digestão, típica de feijoada. A rotina maltrata, pesa. Indolente, esquivo das obrigações. Penso em alguma saída depois do almoço.
As refeições embrulham minha cabeça, tenho a desculpa da sesta. Entucho arroz e feijão na minha boca, engulo com auxílio dum refrigerante. Sobra espaço para o alfajor ou um pão de mel. Arranco com a unha do indicador os farelos da sobremesa caídos no umbigo dilatado. Gula, ela alivia a ansiedade.
Flor... Faz tempo... Desapareci por completo. Houve um envolvimento com ímpeto de desvendar, investigar cada pedaço da pele, mas o baile de máscaras e espelhos imperou. Nunca nos apaixonamos. No príncipio foi gostoso. Ela ligou, planejou programas, cativou-me. É bom haver a opção de sair com uma quase desconhecida. Querendo ou não, escolhi melhores roupas, deparei-me com a vaidade que nego.
Cinemas, muitos... Num deles assistimos "Diários de Motocicleta". Gostei. No entanto, ela sabotou meu romance, ou seja, o nosso. Levou um sujeito do trabalho para segurar vela. Praticamente fiquei de canto. Com seu comparsa comentou a história em desacanhada intensidade durante a sessão. Um desacato. Fui um trófeu nas mãos dela.
Como esse encontro houveram três ou quatro outros desencontros. Fechei as possibilidades, ausentei-me progressivamente. Telefonemas transmutaram em penosos chamados. Fugi, alegava enfermidade. Como toda adulta com porte de filha de adultera, detestam uma negação máscula, um não. Comecei a sentir-me como uma oferta em liquidação, um sapato raro e caro sendo leiloado. Ela cavou sua alcova, seus sete palmos terra abaixo. Por fim, minguou as chances dela mostrar alguma beleza.
O fim do meu interesse foi certeiro quando desabou em mim a mais completa, fria e surda solidão. Naturalmente divago por aí sem companhia, mas quando quis estar, amar, ter prazer, compartilhar felicidades, ela emoldurou-se, untou-se em bronze. Gélida, apática. Distante como uma escultura de mármore. Comigo estou só, com Flor fico sozinho.
"Com meu bem fui ao cinema, não me deixes tão sozinho..."
"Sinto um vazio tão grande, é como se estivesse com você (El Muerto)".
FIM.
Escrito por R.J. às 15h55
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
Raios de Sol por todas as frestas descobrem, desmentem a beleza de então. Nossa aura desmancha de horrores. A companhia resta com resquícios de coca, sua boca é um coquetel de drogas. Eu quis desaparecer. Deitamos nas almofadas. Um minuto correu, ela apagou. Sufocado de nojo, culpado, repugnante à minha cor verminosa clamei por um banho de aguarrás, ou melhor, Diabo Verde. Essa forma demente, doente tem que exaurir! Eu não me agüento... De imediato, evaporei dali.
Rondando a Vinte e Três de maio inquieto, decido caminhar no parque da Aclimação. Estaciono fácil, não há flanelinhas. Cambaleio até o portão verde escuro da entrada. Outro planeta abre-se à minha vista. Resumidamente: o pato na lagoa. Sim, literalmente ele rebolou em direção ao banho fresco das manhas. Faltou o João Gilberto num banquinho e violão. É muita Bossa-nova para um Beat Marginal.
- Preciso destruir alguma merda neste parque... Dar uma bica num pombo, estrangular um passarinho, a menos partir esse graveto ao meio. Ah... Pronto, estou momentaneamente satisfeito.
De passos mancos como samba italiano peço alas para o bebum perambular. Tranço as canelas, ando tombado (longe de ser um patrimônio histórico). Muitos senhores, senhoras em maioria, deixam-me retardatário. Desaprovam meu odor meneando as cabeças. "Velhos abutres... A morte espera-vos no meio fio dessa via." "Velho não serve nem pra comprar genéricos. Lamentam sempre: - Minha aposentadoria vai toda na faculdade do meu neto...".
A maioria é japonesa, caminham compenetrados. Atentos ao coração e varizes.
Num trecho onde o Colégio Anglo-Latino divide muros com o parque, há um grupo nipônico praticando coreografias. Parece um exército de "TeleTubes".Ah ah ah Só rindo dessa vida.... Talvez me falte um esporte...
Banco de praça à disposição. É todo meu. Vislumbro o céu. Durmo largado com sapatos, camisa e calça jeans. Chave, celular e carteira nos bolsos. Ouço vozes, ajeito-me para proteger meus pertences. Quero urinar mas o sono vence.
"Será que vou roncar em público? Será que se abrir a boca uma pomba zombeteira vai mirar titica na minha amídala?" Apago.
Continua.
Escrito por R.J. às 08h05
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
Passaram cinco minutos, Flor volta da cozinha com uísque, cinzeiro, fósforos e maço de cigarros. Chama meu nome para ajeitar-se junto a ela no sofá. O estofado deformado e o calor pouco dissipado do rabo masculino que ali mofou, incomodou meu ego. Sentei no braço do móvel, tirei os sapatos e pisei onde aquele traseiro infeliz esquentou.
Miro seus seios, ela solta fumaça, a conversa esta enfadonha. Ela lembra do colegial e queixa-se do cargo de sub-gerente do banco Real. Investiga a meu respeito. Minto. Em cada indagação minto descaradamente. A verdade tem que ser conquistada, essa garota busca apenas um beijo.
Desfocado do assunto, bocejo. Ela ri duma historia, gargalha sem a minha cumplicidade. Seu rosto desfigura, o maxilar trinca, o ar acaba. Vermelha, tensa de dor, inala o que esta em volta. Deu pena. Caiu bêbada em meu peito, recuperou-se apoiando suas mãos nas minhas coxas. Piscou com vagar e num espasmo sóbrio de assustar, encarou o fundo da minha alma. Disse:
- Eu sei que você quer ir. Só sai daqui se me beijar. Tem que ser gostoso, bom, tenho que acreditar. E mais; você fica parado feito espantalho. Toca em mim quando eu mandar.
Levantei, pus-me em frente à janela. De braços abertos pendi a cabeça Como Jesus. Crucifiquei-me de palmas esticadas. Disse:
- Beija.
Beliscou minhas costas, mordeu a jugular. Com lábios lubrificados chupou o meu inferior. Exalou volúpia, seu tônus derreteu perdido nos meus ombros. Senti um vigor de predador. Tomei seus tufos crespos como rédeas de potranca. Sufoquei-a de ardor e com meu queixo delineei suas sobrancelhas, cílios, orelhas. Quis estrangular com frieza e cautela essa junky imunda. Por bem, passou num relâmpago, foi por pouco tempo.
Nossa sincronia nos respiros, nossos glóbulos sanguíneos entregues à violenta paixão abateram minhas veias de piedade, compaixão. Ela ficou tão simples, tão bonita, tão calorosa e pura...
Fotografei o crepúsculo: Cristalino, jovem, nascente púrpura.
Brisas envolvem esse enlaço, a pela dela vira de galinha, ela encolhe seu busto no meu calor. Horas são comprimidas num afago, sinto o prazer que faz sucumbir.
Continua...
Escrito por R.J. às 11h52
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
Toco o interfone, o porteiro com as pálpebras semi-serradas aponta para o elevador ao fundo. Pressiono o botão de número onze, ele acende, a cabine ascende. Meu peso dobra, sinto pés de elefante. Noto-me no espelho, de perfil, do outro lado, ajeito as sobrancelhas, espremo um cravo entre a boca e o queixo. Continuo o mesmo...
Hall escuro, som abafado de vozes e música atrás da porta. Aciono a campainha, o trinco gira e o vão abre-se imediatamente. É ela. Sorri e flerta feito bruxa, macumbeira, devota de magia negra. Seu sorriso vitorioso acaba comigo, reduz-me a um coelho acuado. Vem à minha orelha e com sussurros graves balbucia para que eu delete, omita tudo.
- Agora tudo é mentira, fume e beba o que quiser. Meu atual ficante acredita que durmo para viajar cedo. Entendeu?
Deu dois passos para trás, colocou um gato branco e bem tratado em seus braços, voltou e colou seu ventre à minha bacia. Gelei. Golpe baixo, nocaute... Ela riu. Vadia... Fez-me acariciar o Giacomo e com as pontas das unhas raspou as costas das minhas mãos. Foi seu primeiro ato de afago.
Disse para não me incomodar com o fulano no sofá. É um antigo caso inofensivo de recaída.
Pouco me importo, aliás, ninguém me conhece. Bebo vodca com gelo, curto uma batida eletrônica e assisto com gosto dois casais num ritual de trocas energéticas. Suspiros, calafrios, languidez. Os quatro derretidos sobre o tapete.
Terceira dose, estou cansado. Um rapaz barbudo de charuto e caneco de cerveja interrompe meu silêncio. Fala da China, do futuro do etanol, da Floresta Amazônica, Bush, Hugo Chaves, segundo mandato do Lula. Critica a esposa do presidente por ter cometido a gafe de dizer que providenciou cidadania italiana para seus filhos com o intuito de oferecer um futuro mais digno a eles.
Concordo com tudo esperando o fim do discurso. Mas não, ele teima em ser inconveniente. Arrota cevada e vomita manifesto comunista. Talvez, poderia fazer uma vírgula do que diz, uma singela ação em prol do povo, ao invés de embriagar-se e entusiasmar-se com o som da própria voz.
Acabando esse gole vou-me. Mais não, fico. Permaneço, pago pra ver no que vai dar. Não tenho nada melhor a fazer.
Flor dispensa o carente, trocam longos abraços no centro do sofá abaixo da janela aberta. Distribuem-se juras de amor, ternas carícias, amizade eterna. Posam juntos para a foto digital de celular. Nada mais patético, ridículo e humilhante para quem assiste. Esse mauricinho é um coitado.
Continua.
Escrito por R.J. às 08h07
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
... Deve ser a típica pessoa que ingere tranqüilizantes para apagar em seu leito. Sob um edredom, lençol cem por cento algodão e com o urso de pelúcia esmagado, sufocado no enlaço dos braços da atormentada proprietária. Sem dúvida, ela é uma piada; de mau gosto... Entanto, quero degustá-la, arrepiar com seu arfar de prazer comprimido no meu ouvido. Em troca, talho um quarto de virtude e, na trama de futuros afrontos, três quartos do que tenho de mais infâme, cruel, mesquinho; enfim, de ruim.
Besteira, bobagem... Vou encontrar nada, ninguém. Não quero reconhecer antigos amigos, fiados, ex-namoradas. Sempre tenho que sorrir a essa gentalha. Cansa fingir ser simpático com essa corja de calhordas que, quando me esbarram, abraçam-me, brindam, roubam meus cigarros. Canalhas, sanguessugas. Tenho asco de emergentes urbanos, de vagabundos malditos, de garotas bipolares mascaradas de mulher emancipada pela dor. Eu só quero um BloodMary. Quero ver o garçom com cara de Mario de Andrade fazer mágicas com cartas. Só isso!
Flor... que nome ridículo... É divertido... É como assistir uma película de Buster Keaton. Ela é peixe pequeno. Palhaça... Não estou apaixonado (droga!). Ela não aflora um sabor desconhecido ou desejado feito chocolate amargo suíço. Há tempos uso repelente, não me aninhei, não casei. Mas em sonhos é diferente: beijo sem descolar por mais de um minuto. Amo as morenas do Sul da Itália, ou melhor, da Puglia... Elas dão o melhor óleo de oliva extravirgem. Estou num feriado prolongado imerso numa banheira escaldante dopado de anfetaminas. Enfim, voltando a São Paulo, na ausência ou no permanente jogo dessa garota, estou nulo. Fechado como João de Barro dentro de casa, porém sem a parceira.
Peguei uma comanda, empurrei a porta e avancei com o pé direito. Ela estava de saída, esbaforida com seu casaco vison. Veio em minha direção. Gritou ao seu namorado para tirar o carro do estacionamento enquanto fosse ao banheiro. O rapaz passou atrapalhado com os recibos e enfiando as mãos nos bolsos à procura do ticket amassado, quase pisou no meu pé.
Conduziu-me à porta do toalete, envolveu meu pescoço com o braço e deixou cair no bolso de lapela do meu paletó um bilhete com letras vermelhas no guardanapo. Disse:
- Oi gato, sabia que ia te ver. Leia com carinho.
Virou as costas e rebolou discretamente até o vão da porta. Foi-se. Eu, sem necessidade de urinar, por inércia, entrei no banheiro.
Abri o recado parado em frente ao lavabo com a torneira aberta:
“– Te espero às três horas nesse endereço. Venha sem medo. É uma festinha particular no meu apartamento. Rua .... , Ap ..., Nº ... , tel ...”
Mirei o espelho rindo da minha cara, desacreditei, li novamente, minhas mãos tremeram.
Continua....
Escrito por R.J. às 07h15
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
Uma risada debochada, libertina, num tom de desafio seguida pela voz estridente. Desfila deixando rastro de perfume impregnado à fumaça do cigarro.
Diferente dos vassalos curvados àquela mulher, porém sem indiferença, prendo minha atenção no enorme e colorido vidro de pimenta sobre a prateleira. Leio a propaganda impressa no apoiador de copos, viro-o por inquietude. Traço com o indicador, sobre as gotículas transpiradas, até a base da tulipa. Estou me comendo, arranhando as vísceras como se urticárias brotassem em meus membros.
Na insuportável curiosidade, de soslaio, para a esquerda, vejo aquele veneno. Alta e magra a roçar sua panturrilha, trançar a virilha sobre a do seu parceiro enfeitiçado, porém, abstêmio de luxuria. Botas de couro preto, fechadas por um zíper lateral interno, vestido roxo de algodão delineando sutilmente a cintura e busto. Escápulas e vértebras expostas pelo decote apontado para a lombar. Colar de esferas de vidro verde-oliva com um no na ponta. Eu diria: a cereja no doce Floresta-negra.
Trocam charme, conversam com o cara do caixa, são populares... Seu parceiro desce as escadas para o toalete. Fico imóvel, quase como “O Pensador” ( Rodin). O tilintar e sacolejo das suas pulseiras de prata me afligem. Sem exitar ela toca meu ombro:
- Oi, você tem fogo?
Antes da resposta, o garçom saca o zipo do avental e num estalo vem a chama. Invade o espaço clareando e aquecendo a silhueta de nossas faces. Suas pupilas dilatam, o amarelo em combustão reflete nas íris:
- Te conheço.
- Eu sei. Foi no sábado.
O trago disfarçou seu abalo, agradeceu ao garçom e perguntou meu nome. Mal esperou e já disse ter nome de flor.
- Quer adivinhar qual flor?
- Sou péssimo nisso. “... Não pode ser Rosa...”
- Então me chame de Flor. Ah ah ah. E o seu?
- O meu?! Ahh... Marcelo.
- Marcelo?
- Marcelo.
- Tim tim.
- Ao São Paulo que deflorou o Santos no Morumbi!!
- São Paulo?!! Faça mil favor, sem comentários...
Escrito por R.J. às 21h04
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
Quatro e meia da manhã, somos os últimos. Eu, ela e mais alguns. Cada qual argumenta e ouve o que quer.
Chega um sujeito estranho, baixo, arrojado e calvo. Contem com um lenço o corte aberto no nariz. Impaciente e atormentado, pede um saquê exigindo copo quadrado. Exala pesado, com dor. Exasperado, em cólera, não vê a hora de algum idiota provocar sua ira. Resmunga como um velho escamoso, nada o fará mais digno.
Pergunto se ele sente-se bem. Ele, engasga com minha preocupação humanitária, entretanto, digamos, eunuca. Desarmado diz ser a primeira pessoa no dia a preocupar-se com sua pessoa. Balbuciou melhoras e agradeceu sem jeito. Por fim, integrou-se a nós e fechamos a noite na “Casa do Padeiro” na Consolação.
O assunto gira em John Coltrane. Flor, leiga , faz um esforço em ser especial. Os homens exaltados com a própria voz, ela, visivelmente empoada, faz minha ficha. Visto a persona tonta, ingênua. Respeito seu companheiro, mas, me vejo num palco lúdico e escroto. Gosto de ver uma vagabunda que me quer.
Fim de semana, mesmo lugar, mesmo horário. Estou preparado, esperançoso, pressentindo o cheiro dela. Seu ansioso e angustiante modo de estar, de mascar chicletes de falar para evitar o próprio silêncio aterrorizante.
Continua.
Escrito por R.J. às 21h04
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
Vem a semana como uma avalanche de responsabilidades ocidentais, quase tudo me contradiz. É véspera de segunda-feira, ressaca solitária. Fico passivo à evasão da luz dominical. O ar estático, o silêncio triste, como manhã de quarta-feira de cinzas, fere meu chakra na altura do umbigo. Faz-me alucinar naquele vaso com margaridas do quintal da minha senhora vizinha. Vejo o cair da tarde acompanhando o velório de alguém especial. A típica pessoa a quem você daria um dia de sua vida em troca de companhia. Eu falaria verdades e segredos velhos entalados no nó da garganta por covardia, por falta de tempo propício. Desculpas e injúrias censuradas pelas nossas frágeis emoções em condição terminal de implosão. Escombros...
Descaso. Descanso. Assisto até a ultima gota dum filme “trash” nos canais abertos de TV. Durmo no sofá com o controle pendendo na mão ao som de emissora fora do ar. Sonho com Tsunamis engolindo os arranha-céus da avenida Paulista. Encontro-me num farol, esperando o sinal verde. Quero atravessar correndo a faixa de pedestres. A penumbra devastadora do mar aterroriza minha consciência. É inevitável...
Hoje o expediente acabou cedo. Não quero voltar pra casa. Rodo a zona Sul com “Morrison Hotel” (The Doors). “... I`m a Spy... I know your deepest secrets fear...”
Estaciono no bar, peço um chope escuro, encosto o cotovelo no balcão. Afrouxo o nó da gravata e desabotôo
meu colarinho. A cada gole, novas argolas de espuma na tulipa. Luz de velas, paredes vermelhas. É meu primeiro sorriso no dia.
Vejo casais: uns riem, outros sussurram no pé do ouvido. Margaritas, brusquetas com queijo gorgonzola derretido. A minha frente, dois jovens homossexuais beijam-se lascivamente e nos respiros, sorvem Lambrusco tinto.
Um golpe de vento corta minha nuca. Sacode as chamas das velas bruscamente. Ouço passos. Parecem sapatos de salto alto... Compassados e firmes no piso de taco. Ecoam pelo salão.
Continua...
Escrito por R.J. às 21h05
[]
[envie esta mensagem]
[link]
|
[ ver mensagens anteriores ]
|
|
 |



|
Meu perfil
BRASIL, Homem, ator, músico
|
|