Vem a semana como uma avalanche de responsabilidades ocidentais, quase tudo me contradiz. É véspera de segunda-feira, ressaca solitária. Fico passivo à evasão da luz dominical. O ar estático, o silêncio triste, como manhã de quarta-feira de cinzas, fere meu chakra na altura do umbigo. Faz-me alucinar naquele vaso com margaridas do quintal da minha senhora vizinha. Vejo o cair da tarde acompanhando o velório de alguém especial. A típica pessoa a quem você daria um dia de sua vida em troca de companhia. Eu falaria verdades e segredos velhos entalados no nó da garganta por covardia, por falta de tempo propício. Desculpas e injúrias censuradas pelas nossas frágeis emoções em condição terminal de implosão. Escombros...
Descaso. Descanso. Assisto até a ultima gota dum filme “trash” nos canais abertos de TV. Durmo no sofá com o controle pendendo na mão ao som de emissora fora do ar. Sonho com Tsunamis engolindo os arranha-céus da avenida Paulista. Encontro-me num farol, esperando o sinal verde. Quero atravessar correndo a faixa de pedestres. A penumbra devastadora do mar aterroriza minha consciência. É inevitável...
Hoje o expediente acabou cedo. Não quero voltar pra casa. Rodo a zona Sul com “Morrison Hotel” (The Doors). “... I`m a Spy... I know your deepest secrets fear...”
Estaciono no bar, peço um chope escuro, encosto o cotovelo no balcão. Afrouxo o nó da gravata e desabotôo
meu colarinho. A cada gole, novas argolas de espuma na tulipa. Luz de velas, paredes vermelhas. É meu primeiro sorriso no dia.
Vejo casais: uns riem, outros sussurram no pé do ouvido. Margaritas, brusquetas com queijo gorgonzola derretido. A minha frente, dois jovens homossexuais beijam-se lascivamente e nos respiros, sorvem Lambrusco tinto.
Um golpe de vento corta minha nuca. Sacode as chamas das velas bruscamente. Ouço passos. Parecem sapatos de salto alto... Compassados e firmes no piso de taco. Ecoam pelo salão.
Continua...
Escrito por R.J. às 21h05
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Seu antebraço pálido, longo e raquítico, fazia dos movimentos, o tilintar e escorregar das pulseiras de prata e uma fita carcomida roxa do Senhor do Bonfim. De baixo, como uma víbora, veio a mim. Seu ar acuado, porém intrometido, camuflou-se nas mechas dos cabelos crespos, já opacos e oleosos. Com sorriso tímido de lábios finos rachados de seco perguntou:
- Você tem pó?
- Desculpe, não tenho.
- Ah tá... Não se ofenda, mas é que você parece... Bom... Deixa quieto.
Sorri dando um leve aceno de cabeça com a intenção de dizer que tal equivoco, quase surreal, não me afetou, sequer denegriu minha imagem. ...Se é que tenho uma.
O foco voltou aos músicos. Um som repleto de riscos. Eu, apreensivo, excitado com o Free Jazz ora fusion ora bossa nova, entretanto rock e por fim cool. O chinês tropicalista trincava sua guitarra semi-acustica preta, modelo semelhante, porém inferior à Gibson Lucille do B.B.King. Nunca ouvi nada igual. Sua arte dribla tudo e todos com certa criancice alienígena. É fantástico!
Nessa noite ele estava tomado – como diria o dono do Bar-. De alma inconstante, denuncia e acusa cada canto da sala. Por vezes prende o olhar no sapato de bico fino, cano médio, que bate o pulso da canção com o taco. Jamais olha para o braço do instrumento que debulha. Morde o cigarro, com a cinza por bater, no canto da boca. A fumaça sinuosa parece marcar o tempo do seu improviso como uma ampulheta num torneio de xadrez. Ao cessar e delegar os próximos compassos ao sax, pingando de suor, traga o fim do fumo, apaga a brasa na língua e mastiga a guimba. “... Não é possível, no mínimo está querendo a coroa da primeira cadeira. Ela baba por ele desde o primeiro acorde. Nunca vi isso! Nem no gibi do Tex!”
Mudou de cor, seus traços crispados de dor emergiram lágrimas que vazaram até a bochecha. Voltou a solar com distorção, transfigurado, deixou o Hendrix no chinelo.
No furor do som ela abordou-me novamente. Aparentemente indiferente ao show, com uma taça de saquê, puxou uma cadeira e fez um convite. Sentei. No meu ouvido gritou:
- Você quer daqui a pouco esticar a balada num pico mais agitado? Terminando esse drink, a gente vai numa boate GLS. Meu amigo tem um contato lá. Vai descolar um doce. Tá afim?!
Surpreso de forma cínica, falsa e hipócrita, disse a ela e seu colega pederasta de mau humor, que tinha um compromisso indispensável. Sorri como uma gueixa (como diz Mutarelli em Jesus Kid) e agradeci o convite. Vendo os dois, pensei:
- Toda vaca tem um escudeiro bicha...
Fui ao banheiro e ao voltar já não os vi. Peguei outro chope e apreciei o bis.
Continua...

Escrito por R.J. às 22h07
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