Uma risada debochada, libertina, num tom de desafio seguida pela voz estridente. Desfila deixando rastro de perfume impregnado à fumaça do cigarro.

   Diferente dos vassalos curvados àquela mulher, porém sem indiferença, prendo minha atenção no enorme e colorido vidro de pimenta sobre a prateleira. Leio a propaganda impressa no apoiador de copos, viro-o por inquietude. Traço com o indicador, sobre as gotículas transpiradas, até a base da tulipa. Estou me comendo, arranhando as vísceras como se urticárias brotassem em meus membros.

   Na insuportável curiosidade, de soslaio, para a esquerda, vejo aquele veneno. Alta e magra a roçar sua panturrilha, trançar a virilha sobre a do seu parceiro enfeitiçado, porém, abstêmio de luxuria. Botas de couro preto, fechadas por um zíper lateral interno, vestido roxo de algodão delineando sutilmente a cintura e busto. Escápulas e vértebras expostas pelo decote  apontado para a lombar. Colar de esferas de vidro verde-oliva com um no na ponta. Eu diria: a cereja no doce Floresta-negra.  

   Trocam charme, conversam com o cara do caixa, são populares...  Seu parceiro desce as escadas para o toalete. Fico imóvel, quase como “O Pensador” ( Rodin). O tilintar e sacolejo das suas pulseiras de prata me afligem. Sem exitar ela toca meu ombro:

- Oi, você tem fogo?

   Antes da resposta, o garçom saca o zipo do avental e num estalo vem a chama. Invade o espaço clareando e aquecendo a silhueta de nossas faces. Suas pupilas dilatam, o amarelo em combustão reflete nas íris:

- Te conheço.

- Eu sei. Foi no sábado.

   O trago disfarçou seu abalo, agradeceu ao garçom e perguntou meu nome. Mal esperou e já disse ter nome de flor.

- Quer adivinhar qual flor?

- Sou péssimo nisso. “... Não pode ser Rosa...”

- Então me chame de Flor. Ah ah ah. E o seu?

- O meu?! Ahh... Marcelo.

- Marcelo?

- Marcelo.

- Tim tim.

- Ao São Paulo que deflorou o Santos no Morumbi!!

- São Paulo?!! Faça mil favor, sem comentários... 



Escrito por R.J. às 21h04
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  Quatro e meia da manhã, somos os últimos. Eu, ela e mais alguns. Cada qual argumenta e ouve o que quer.

   Chega um sujeito estranho, baixo, arrojado e calvo. Contem com um lenço o corte aberto no nariz. Impaciente e atormentado, pede um saquê exigindo copo quadrado. Exala pesado, com dor. Exasperado, em cólera, não vê a hora de algum idiota provocar sua ira. Resmunga como um velho escamoso, nada o fará mais digno.

   Pergunto se ele sente-se bem. Ele, engasga com minha preocupação humanitária, entretanto, digamos, eunuca. Desarmado diz ser a primeira pessoa no dia a preocupar-se com sua pessoa. Balbuciou melhoras e agradeceu sem jeito. Por fim, integrou-se a nós e fechamos a noite na “Casa do Padeiro”  na Consolação.

   O assunto gira em John Coltrane. Flor, leiga , faz um esforço em ser especial. Os homens exaltados com a própria voz, ela, visivelmente empoada, faz minha ficha. Visto a persona tonta, ingênua. Respeito seu companheiro, mas, me vejo num palco lúdico e escroto. Gosto de ver uma vagabunda que me quer.

   

 

   Fim de semana, mesmo lugar, mesmo horário. Estou preparado, esperançoso, pressentindo o cheiro  dela. Seu ansioso e angustiante modo de estar, de mascar chicletes de falar para evitar o próprio silêncio aterrorizante. 

 

Continua.

 



Escrito por R.J. às 21h04
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