... Deve ser a típica pessoa que ingere tranqüilizantes para apagar em seu leito. Sob um edredom, lençol cem por cento algodão e com o urso de pelúcia esmagado, sufocado no enlaço dos braços da atormentada proprietária. Sem dúvida, ela é uma piada; de mau gosto... Entanto, quero degustá-la, arrepiar com seu arfar de prazer comprimido no meu ouvido. Em troca, talho um quarto de virtude e, na trama de futuros afrontos, três quartos do que tenho de mais infâme, cruel, mesquinho; enfim, de ruim.
Besteira, bobagem... Vou encontrar nada, ninguém. Não quero reconhecer antigos amigos, fiados, ex-namoradas. Sempre tenho que sorrir a essa gentalha. Cansa fingir ser simpático com essa corja de calhordas que, quando me esbarram, abraçam-me, brindam, roubam meus cigarros. Canalhas, sanguessugas. Tenho asco de emergentes urbanos, de vagabundos malditos, de garotas bipolares mascaradas de mulher emancipada pela dor. Eu só quero um BloodMary. Quero ver o garçom com cara de Mario de Andrade fazer mágicas com cartas. Só isso!
Flor... que nome ridículo... É divertido... É como assistir uma película de Buster Keaton. Ela é peixe pequeno. Palhaça... Não estou apaixonado (droga!). Ela não aflora um sabor desconhecido ou desejado feito chocolate amargo suíço. Há tempos uso repelente, não me aninhei, não casei. Mas em sonhos é diferente: beijo sem descolar por mais de um minuto. Amo as morenas do Sul da Itália, ou melhor, da Puglia... Elas dão o melhor óleo de oliva extravirgem. Estou num feriado prolongado imerso numa banheira escaldante dopado de anfetaminas. Enfim, voltando a São Paulo, na ausência ou no permanente jogo dessa garota, estou nulo. Fechado como João de Barro dentro de casa, porém sem a parceira.
Peguei uma comanda, empurrei a porta e avancei com o pé direito. Ela estava de saída, esbaforida com seu casaco vison. Veio em minha direção. Gritou ao seu namorado para tirar o carro do estacionamento enquanto fosse ao banheiro. O rapaz passou atrapalhado com os recibos e enfiando as mãos nos bolsos à procura do ticket amassado, quase pisou no meu pé.
Conduziu-me à porta do toalete, envolveu meu pescoço com o braço e deixou cair no bolso de lapela do meu paletó um bilhete com letras vermelhas no guardanapo. Disse:
- Oi gato, sabia que ia te ver. Leia com carinho.
Virou as costas e rebolou discretamente até o vão da porta. Foi-se. Eu, sem necessidade de urinar, por inércia, entrei no banheiro.
Abri o recado parado em frente ao lavabo com a torneira aberta:
“– Te espero às três horas nesse endereço. Venha sem medo. É uma festinha particular no meu apartamento. Rua .... , Ap ..., Nº ... , tel ...”
Mirei o espelho rindo da minha cara, desacreditei, li novamente, minhas mãos tremeram.
Continua....
Escrito por R.J. às 07h15
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