Toco o interfone, o porteiro com as pálpebras semi-serradas aponta para o elevador ao fundo. Pressiono o botão de número onze, ele acende, a cabine ascende. Meu peso dobra, sinto pés de elefante. Noto-me no espelho, de perfil, do outro lado, ajeito as sobrancelhas, espremo um cravo entre a boca e o queixo. Continuo o mesmo...
Hall escuro, som abafado de vozes e música atrás da porta. Aciono a campainha, o trinco gira e o vão abre-se imediatamente. É ela. Sorri e flerta feito bruxa, macumbeira, devota de magia negra. Seu sorriso vitorioso acaba comigo, reduz-me a um coelho acuado. Vem à minha orelha e com sussurros graves balbucia para que eu delete, omita tudo.
- Agora tudo é mentira, fume e beba o que quiser. Meu atual ficante acredita que durmo para viajar cedo. Entendeu?
Deu dois passos para trás, colocou um gato branco e bem tratado em seus braços, voltou e colou seu ventre à minha bacia. Gelei. Golpe baixo, nocaute... Ela riu. Vadia... Fez-me acariciar o Giacomo e com as pontas das unhas raspou as costas das minhas mãos. Foi seu primeiro ato de afago.
Disse para não me incomodar com o fulano no sofá. É um antigo caso inofensivo de recaída.
Pouco me importo, aliás, ninguém me conhece. Bebo vodca com gelo, curto uma batida eletrônica e assisto com gosto dois casais num ritual de trocas energéticas. Suspiros, calafrios, languidez. Os quatro derretidos sobre o tapete.
Terceira dose, estou cansado. Um rapaz barbudo de charuto e caneco de cerveja interrompe meu silêncio. Fala da China, do futuro do etanol, da Floresta Amazônica, Bush, Hugo Chaves, segundo mandato do Lula. Critica a esposa do presidente por ter cometido a gafe de dizer que providenciou cidadania italiana para seus filhos com o intuito de oferecer um futuro mais digno a eles.
Concordo com tudo esperando o fim do discurso. Mas não, ele teima em ser inconveniente. Arrota cevada e vomita manifesto comunista. Talvez, poderia fazer uma vírgula do que diz, uma singela ação em prol do povo, ao invés de embriagar-se e entusiasmar-se com o som da própria voz.
Acabando esse gole vou-me. Mais não, fico. Permaneço, pago pra ver no que vai dar. Não tenho nada melhor a fazer.
Flor dispensa o carente, trocam longos abraços no centro do sofá abaixo da janela aberta. Distribuem-se juras de amor, ternas carícias, amizade eterna. Posam juntos para a foto digital de celular. Nada mais patético, ridículo e humilhante para quem assiste. Esse mauricinho é um coitado.
Continua.
Escrito por R.J. às 08h07
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