Semanas correm velozes, ligeiras, porém em paradóxo, cada dia empaca como uma difícil digestão, típica de feijoada. A rotina maltrata, pesa. Indolente, esquivo das obrigações. Penso em alguma saída depois do almoço.
As refeições embrulham minha cabeça, tenho a desculpa da sesta. Entucho arroz e feijão na minha boca, engulo com auxílio dum refrigerante. Sobra espaço para o alfajor ou um pão de mel. Arranco com a unha do indicador os farelos da sobremesa caídos no umbigo dilatado. Gula, ela alivia a ansiedade.
Flor... Faz tempo... Desapareci por completo. Houve um envolvimento com ímpeto de desvendar, investigar cada pedaço da pele, mas o baile de máscaras e espelhos imperou. Nunca nos apaixonamos. No príncipio foi gostoso. Ela ligou, planejou programas, cativou-me. É bom haver a opção de sair com uma quase desconhecida. Querendo ou não, escolhi melhores roupas, deparei-me com a vaidade que nego.
Cinemas, muitos... Num deles assistimos "Diários de Motocicleta". Gostei. No entanto, ela sabotou meu romance, ou seja, o nosso. Levou um sujeito do trabalho para segurar vela. Praticamente fiquei de canto. Com seu comparsa comentou a história em desacanhada intensidade durante a sessão. Um desacato. Fui um trófeu nas mãos dela.
Como esse encontro houveram três ou quatro outros desencontros. Fechei as possibilidades, ausentei-me progressivamente. Telefonemas transmutaram em penosos chamados. Fugi, alegava enfermidade. Como toda adulta com porte de filha de adultera, detestam uma negação máscula, um não. Comecei a sentir-me como uma oferta em liquidação, um sapato raro e caro sendo leiloado. Ela cavou sua alcova, seus sete palmos terra abaixo. Por fim, minguou as chances dela mostrar alguma beleza.
O fim do meu interesse foi certeiro quando desabou em mim a mais completa, fria e surda solidão. Naturalmente divago por aí sem companhia, mas quando quis estar, amar, ter prazer, compartilhar felicidades, ela emoldurou-se, untou-se em bronze. Gélida, apática. Distante como uma escultura de mármore. Comigo estou só, com Flor fico sozinho.
"Com meu bem fui ao cinema, não me deixes tão sozinho..."
"Sinto um vazio tão grande, é como se estivesse com você (El Muerto)".
FIM.