Conto N° 3

    Acho que sei. Será? Minhas pálpebras cerradas sempre facilitaram as lúgubres ou lúdicas miragens provindas da minha escuridão. Intuição, vozes, visões e imagens que só eu crio ou recebo, só eu tiro proveito ou temo. " Um, nenhum e cem mil". Nada mais solitário do que abrir os olhos e duvidar do espelho. Geralmente pergunto: Esse espelho engorda, não?

    Estou ao lado de lábios colados com uma personagem mulher, num sofá de textura rota. Faz calor, exalamos amor, mas, esqueci quem é.

    Há tempos, no cruzamento da rua Brigadeiro Jordão com a Costa Aguiar, Ipiranga, eu brincava de cabra-cega com um par de amigos gêmeos. Vestiam-se literalmente idênticos. O mesmo corte de cabelo, patinete, a mesma tatuagem de chiclete. Um, pouco mais gordo, e a voz do outro, sutilmente mais grave. Ambos de nomes compostos, chamavam-se de " meu", ou melhor: "Oh meu!"

    Volta e meia vendavam meus olhos, giravam meu corpo até dar vertigem; davam pontapés, tapas na nuca e gritavam:

    - O leitão é mulher do padre... O leitão é mulher do padre...

    Assoviavam em torno como pernilongos nas madrugadas de sono. Angustiado e irado, eu socava o ar. Receoso, travado, duvidava dos quatro sentidos. Desesperado, explodiam gritos exasperados suplicando o cessar do jogo. Em troca, ouvia em crescente intensidade meu lamento misturado às gargalhadas e o coro do inferno. A rua caçoava de mim, cantarolavam:

    - "Chora chora chora, pára de chorar. Põe a mão na cabeça, Põe a mão na cintura... MULHERZINHA! MULHERZINHA!! MULHERZINHA!!!"

    Uma vez desabei no chão, encolhi, virei feto sem afeto. Não me rendi, fiquei no escuro com orgulho e teimosia. Minha agonia doída dissipou as vozes. Fez frio e veio pavor de solidão. Mergulhado feito tartaruga escondida no casco, o buraco era tão fundo que não dava pé. Aveludado, cercado, ninguém... Ninguém vasculhou aquelas vísceras negras onde cai.

    Naquele instante brotaram imagens. Vinham em terceira dimensão, gráficos de Atari. Formas de insetos, aracnídeos, peixes. Jorraram sem censura em espirais sobrepostas brilhando como vaga-lumes. Convenção de olhos de gatos; aqueles nos pedais de bicicleta.

" ... Seus cat eyes me livram de abismos na escuridão." ( El Muerto).

Continua...



Escrito por R.J. às 19h16
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