Esse lugar cheira mofo. O piso é de taco. Rua Apeninos; é uma possibilidade. Apartamento 111.
O porteiro é meu camarada; meio tapado, coitado. Não entende uma palavra, e ao falar, faz-me pensar. Dei-lhe uma rechonchuda almofada, desde então, nas longas madrugadas, ele ronca feito porco.
Meu tio vai casar. Esta mobiliando os cômodos. O sofá vermelho é uma maravilha… Impossível… As paredes expeliriam odor de tinta e as portas, verniz. Minha casa está fora de cogitação, jamais faria tamanha insensatez. Mulher deixa rastros. São bacilos da ruína, começam a surgir no estofado do carro: fios de cabelo, grampos, lápis preto.
Hum… delícia. Finco com afinco meus caninos nas arterias dessa cabrocha. Essa jugular mestiça faz-me vizinho da liberdade. – São Paulo pulsa com sangue vira-lata graças ao porto de Santos. Tornei-me sommelier sanguineo. É um trabalho arduo -.
Até então, aqui, vagando imerso na neblina da minha cegueira, as sombras tomam cor, plasmam em arroubos de amor. Tons de batom, rímel em olhos de gueixa, mar de sardas por onde navego em costas sinuosas. Afago a realidade desta carne duvidosa, dessa companhia que virou fumaça nos meus delírios. Entanto, desfruto da real paixão de todos os olhos que vi e vivi. Estou num harem Fellinesco meio assim: “Oito e meio”. Minhas damas me querem ao mesmo tempo.