Viro-me, miro meus pés, procuro os sapatos. Paredes escuras, sala diminuta, semelhante a um brechó. Cinzeiro antigo: tartaruga de bronze; tanto o casco quanto o tronco do anfíbio acolhem brasas, guimbas e cinzas.

   Curiosidade alastra pelas entranhas, tenho medo. Medusa, Deus me acuda... Tudo Bem, ela repousa, mas nutro a repulsa. Ao girar-me posso petrificar minha vaidade, meus trinta anos. De qualquer forma, é uma vergonha.

   A luz da aurora atravessa a textura da cortina, feixes de saída. Felizmente ilustram o trinco. Calco as digitais, torço com cuidado. Sou uma alma penada, calcanhares suspensos. Ah... Elevador, respiro, rompo o gelo com um peido, espirro sorrindo,  risos num solitário cubículo rumo ao térreo. Quem é mais fétido, eu ou o fedor compacto? Cumprimento o porteiro: até logo... ( até parece...).

Rua. Aroma de pingado e pão na chapa. Esqueci algo? Carteira, chaves...

 

   Maldito flashback!!! Dois meses se foram. Aparentemente tudo igual: primeira, segunda, primeira, ponto morto, carinho no câmbio. Sinal verde, vermelho, pedestres, pedintes, balas de anis ou flanelas pendendo no retrovisor. Marginal Pinheiros, Bandeirantes, Brooklin, Fran’s Café. Balcão de mármore, padaria de cada dia. Chapeiro caolho, muito simpático, chama-me de patrão. Mineiro quente acompanha o de sempre. Aqueço os dedos na xícara, inalo o vapor da bebida, distraído nas espumas do leite. Maldito flashback!!! Lembrei de tudo.

 

Continua.   



Escrito por R.J. às 07h57
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