Minha paquera escapava nos intervalos dos quais o diretor espanava as idéias. “Normalmente” ouvia-se os escândalos repercutirem na bilheteria: explodiam num tom grosso rasgado que na falta do ar afinavam como quem respira gás Helio, praticamente hilário.
Em tais horas ela trombava na porta do saguão enroscando-se nas cortinas de veludo vermelho sangue. Com um celular em punho, desatinada gaguejava: ch ch chamem a a aa ambulância!!! Ele v-v-va vai ter um de-derrame!!!
Hesitante com o impacto eu corria a rampa da arena para apaziguar ou averiguar o surtado cambaleando nas tamancas. Num ensaio berrou: - Mata ela! Mata ela, Tatiana!! Prefiro ser um frango, uma galinha choca do que dirigir uma incompetência dessa. Vocês são medíocres! Medíocres!!
Acusada de morte, reduzida em migalhas, a atriz engolia o choro em soluços enquanto os outros focavam-se nos holofotes de gelatina azul. Giovane ao tagarelar, esmurrou a testa com frenesi no encosto estofado duma das poltronas da platéia. Eu juro que quis aplaudir com entusiasmo e gracejos como: Bravo!! Bravo!! Segurei-me, afinal; onde mais poderia ler Freak Brothers durante o expediente?
Voltando no assunto, nas piscadelas de folga, contudo, a léguas da paz e quilômetros do ócio, na soleira do botequim que ali de canto se encosta, eu e ela ríamos dum flagrante em que fantasiado virou fato histórico. Alegria cerzida de ironia refletida nos dentes envernizados de nicotina. Esse é o retrato falado dos artistas de São Paulo. Pinga, daquela sobrou. Cigarros comunitários, copos de plástico. O fim duma brasa acende a vida de outra. Esfumaça a noite da boca.
Ela disse:
- Sabe... Tenho notado que todos homens estão virando viados. Por que?
- Acho que sei... é porque as mulheres estão muito “Macho”.
- Será?
- Gostaria de me ver de calcinha e tamanco?
- Ah ah ah ah ...
O fim duma brasa acende a vida de outra. Esfumaça a noite da boca.
FIM
Escrito por R.J. às 16h45
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